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terça-feira, 1 de maio de 2018

A resistência das Rodas Culturais






Como já expliquei aqui no post sobre a origem do hip-hop, a essência do movimento começou com encontros nas ruas das periferias de bairros pobres de Nova Iorque. Com uma infraestrutura mínima de aparelhagem de som e bases musicais - os beats, Mcs começaram a rimar e assim foram dando a cara ao movimento. Estilo, gírias, comportamentos e até uma linguagem própria construíram uma cultura de rua. Com o proposito de levar cultura, arte e integração social aos jovens, surgiram as rodas culturais, símbolo de resistência da cultura Hip Hop. Hoje em dia, foi definido como Roda Cultural todo encontro periódico comunitário tendo como base o Hip Hop, que acontece no espaço público, sem atrapalhar a circulação das pessoas e totalmente gratuito, visando uma transformação de território. Nos encontros acontecem exposições de artes, trocas de livros, pocket shows, batalhas de rima e normalmente são realizados em praças públicas.

 Sem muitas alternativas de lazer, e longe de debates que fomentam o pensamento crítico e livre, alguns jovens começam a tomar um caminho alternativo, que por vezes beira a criminalidade e o vício em drogas. As Rodas Culturais tem como principal objetivo trazer a esperança aos jovens e poder incentivar, através de cultura e arte, a capacidade dessas pessoas em conquistar um futuro promissor. Dessa forma, a ocupação do espaço público em favor da cultura é fundamental para incentivar atividades enriquecedoras na atmosfera dos jovens, principalmente nas periferias. Não só jovens e não só das periferias, a rua é o lugar mais democrático para fazer uma atividade cultural que deseja engajar o seu publico em discussões sobre temas sociais. Porém essa forma alternativa de lazer entre os jovens tem sido alvo de repressão por parte da polícia.

 O movimento das Rodas Culturais no Rio de Janeiro tem cerca de 10 anos e foi, pela primeira vez, reconhecido em 2012, na gestão de Eduardo Paes, que identificou o movimento das Rodas como Circuito Carioca de Rima e Poesia, o CCRP. Assim foi exposta a existência e o valor cultural do movimento, porém não houve uma política de proteção, não se tratou da autorização, não se falou de uma política de fomento das Rodas, nem sobre a questão de uma mediação com os órgãos de segurança para poder evitar repressão, ou seja, em termos de políticas públicas o movimento ainda era muito enfraquecido. Tal vulnerabilidade, deixava os encontros desprotegidos e fez com que Rodas Culturais espalhadas pelo Rio de Janeiro sofressem diversas investidas de órgão de segurança para que parassem de acontecer, um exemplo é a Roda de Vila Isabel que resiste firme, até hoje, contra a atuação da polícia.

Para entender melhor o cenário do movimento, entrevistei o fundado da ONG ‘’Onda Carioca’’, que tem sede na comunidade do Canal das Taxas, mais conhecida como Terreirão, no bairro do Recreio, Zona Oeste do Rio. Júlio Cesar da Costa é formado em direito pela PUC – Rio e ativista de causas ambientais e sociais. Ele é o líder da Roda Cultural do Terreirão e percursor do projeto LigaRJ 1.0 que visa uma melhor gestão pública das Rodas Culturais a nível de estado. Conversando com Júlio, conseguimos resumir os principais desafios que permeiam as discussões sobre a organização e administração das Rodas. Respondendo algumas perguntas ele nos faz entender perfeitamente o que se passa no cenário atual da cultura de rua.



 Os desafios de ocupar o espaço público com cultura

‘’Hoje o ato mais revolucionário, no nosso momento agora, é ocupar as ruas, a gente vive quase um estado de exceção, a criminalização da pobreza, dos movimentos sociais e culturais, a própria violência em si, tudo dificulta muito que as pessoas se sintam estimuladas a ocupar as ruas, a sair de casa. Ocupar a rua hoje é um desafio, e ocupar a rua com cultura é mais complicado ainda porque não há apoio nenhum do poder público, a dificuldade de estrutura... você precisa de estrutura pra fazer uma atividade cultural na rua, por menor que seja. E a questão principal: a mentalidade arcaica e preconceituosa dos órgãos de segurança em relação as atividades culturais da rua. Entrando na questão dos encontros semanais, quem faz a roda são jovens da periferia , de favela, basicamente. Em termos de políticas públicas, nunca teve uma politica definida pras rodas culturais. De 2012 pra cá que começou a surgir alguma coisa na gestão do Eduardo Paes que reconheceu as rodas culturais como CCRP. Então a gente vem com um histórico de políticas públicas muito fraco, e o movimento mesmo vulnerável e exposto a uma serie de violências vindo do poder publico, não parou de crescer.''




É uma atividade muito orgânica, afirma Júlio Cesar, um movimento de resistência. Ele chama atenção pra facilidade que é, reunir os jovens hoje. ''Para fazer uma roda cultural, hoje, podemos usar apenas o celular, dessa maneira os organizadores tem conseguido manter as atividades mesmo sem o apoio do poder público.''

Júlio conta que nunca existiu um aparato normativo que oferecesse as Rodas uma tranquilidade para trabalhar, ele admite que os encontros se desenvolveram em um ambiente totalmente hostil, de muita resistência, porém nunca deixaram de crescer. Júlio revela que começou a perceber a fragilidade do movimento quando iniciou a Roda Cultural do Terreirão entre 2014 e 2015 . Ele aponta ter percebido uma fragilidade jurídica pra poder sustentar o movimento e assim iniciou um trabalho, onde a Roda Cultural do Terreirão é protagonista, de construção de uma visão de futuro, de uma política pública que oferecesse conforto e segurança pras Rodas. De 2016 pra cá, a ONG começou a levantar uma série de bandeiras a fim de construir uma base para o movimento. O principal desafio da ocupação do espaço publico com a cultura, indica o ativista, é a construção de um diálogo com o poder público, porque não há espaço para o debate com a prefeitura, com a polícia e nem com o Estado. Dessa forma, fica muito difícil construir uma relação com os atores que deveriam abraçar e cuidar do movimento. Não existe apoio, pelo contrario, existe um movimento pra prejudicar e de alguma forma desestimular a realização da atividade cultural. Porém,Júlio concorda que essa dificuldade tem melhorado.

 A questão financeira também é um dos desafios apontados por ele, porque por mais que a roda possa acontecer com uma estrutura mínima, para o movimento crescer, precisa existir uma estrutura. Nesse aspecto, não se falam em uma política de fomento as Rodas, de apoio pra os jovens que querem fazer o movimento crescer, eles precisam correr atrás de forma independente pra poder continuar a exercer a atividade. Outro desafio é a falta de informação em relação ao tamanho desse movimento, falta uma pesquisa complexa em torno do movimento para entender melhor a importância dele pra cultura de rua e pra cultura em geral. É preciso também uma legislação direcionada e mais que isso, uma mentalidade que incentive o movimento.

 Desde de janeiro deste ano, a cultura do hip hop é considerada patrimônio cultural imaterial do Estado graças a iniciativa do deputado Marcelo Freixo (Psol) junto com o parlamentar Zaqueu Teixeira (PDT), os autores da lei. Eles concordam que assim diminuirá a perseguição sofrida pelas rodas culturais no Rio. Até antes da lei, de acordo com o decreto anterior, qualquer evento, seja cultural, social, desportivo, religioso, que promova concentrações de pessoas depende de prévia autorização da Polícia Militar do e do Corpo de Bombeiros. A organização das Rodas tinha que conseguir o nada opor dos órgãos de segurança sempre que fossem realizar o evento. O decreto deixava as Rodas totalmente expostas e na mão do batalhão local de polícia.

Com a iniciativa de Freixo e a nova lei, o que mudou foi o reconhecimento do Estado, o que é muito importante levando em consideração a visão marginalizada que se tem das Rodas Culturais. Quando se nomeia algo patrimônio da cidade é preciso que o governo desenvolva uma série de burocracias para poder efetivar a proteção.

 O que mudou com a nova lei

 ‘’Reduziu sensivelmente o numero de ocorrências de repressão policial. Toda semana, Rodas entravam em contato comigo para falar que houve embate com a policia e depois do artigo não recebi nenhuma ligação. Eles tem que cumprir a lei agora, é um alívio deixarmos de ser caso de polícia pra ser caso de proteção da polícia, eles tem que nos proteger agora, somos patrimônio do Estado. Mas o desafio maior, continua sendo, mudar a mentalidade da polícia, para que eles possam nos ver como aliados, ajudando na prevenção a violência, prevenindo criminalidade, apoiando a gente, poque a gente quer fazer mais ainda ’’ahh tem alguém fumando maconha.... ‘’ Isso acontece em qualquer lugar, mas não define o movimento.''

 Júlio Cesar evidência que a iniciativa de Marcelo freixo veio em um momento ótimo para melhorar a articulação dos organizadores de projetos culturais com o governo. A Roda Cultural não oferece risco a segurança, em contrapartida ela previne violência, ajuda a segurança pública, pois promove uma ocupação engajada do espaço público. Com a nova lei, Julio Cesar começa a colocar em prática seu projeto LigaRj que tem como principal objetivo dar base de gestão para os organizadores e informação para esses possam conduzir as Rodas Culturais da melhor forma possível, incentivando a arte e projeto socioculturais.


















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